O “New York Times” e o “Le Monde”, duas visões das tendências turísticas de 2020

Não mencionada pelo NYT, Olinda seduziu o júri do Le Monde

Enquanto os 52 destinos do New York Times já são uma seleção consagrada, destacando tendências antecipadas pelos leitores, os profissionais do setor turístico e um comité de jornalistas especializados, o  prestigioso jornal francês Le Monde decidiu publicar agora uma seleção de 20 destinos escolhidos com critérios novadores. Sem recorrer aos leitores, mas consultando especialistas,  levaram em consideração não somente beleza, novidade e conteúdo cultural, mas também a “consciência ecológica ” e a pegada carbone de cada viagem, favorecendo as estadas longas e as distancias curtas. Os dois ranking são assim completamente diferentes, mas é interessante de constatar  que algumas escolhas são bem próximas, que algumas temáticas estão virando tendências internacionais, e que três destinos constam das duas listas.

Casas tradicionais nas Ilhas Faroe

Americanos e franceses concordaram na escolha de algumas regiões,  mas com destaques diferentes. Foi assim nas ilhas do litoral atlântico da França onde o NYT escolheu a surpreendentemente  “perfeita” Belle Ile en Mer na Bretanha, enquanto o Le Monde preferiu o charme escondido e a tranquilidade fora-do-tempo da ile d’Aix. Na Scandinavia,  o NYT destacou as surpresas arquiteturais de Jevnaker na Noruega e as trilhas da Suécia ocidental, enquanto o Le Monde ficou fascinado pela beleza selvagem, os pássaros e as tradições culturais das Ilhas Faroe. Menos esperada, a Polonia ficou também nas preferencias dos dois júris, porem foi Cracóvia, sua arquitetura e sua bem sucedida reconversão industrial, que levou as preferencias dos americanos, a escolha  dos franceses sendo a cidade de Gdansk (outrora a alemã Danzig),  seu urbanismo medieval e a longa historia do seu porto hanseático.

Inventada antes dos barros gauleses, a vinificação da Georgia utiliza jarras de barro chamadas kveris

Ambas listas mostram algumas tendências das viagens internacionais. A primeira é a importância cada vez maior dos meios de transportes alternativos. O sucesso do trem explica o destaque dado a Suíça e ao Bernina Express e aos seus 152 quilômetros de trilhos atravessando uma área tombada pela UNESCO, a procura de lugar “bike friendly” está valorizando a Holanda e sua capital Haia. A segunda tendência é o força das viagens temáticas, com destaque para o enoturismo e as vinícolas. Sem nenhum chauvinismo, os franceses escolheram assim a Georgia e os vinhedos da Cachétia. Perto do Mar Negro, vinhos bem peculiares são produzidos com umas técnicas milenares, amadurecendo em jarras de barro enterradas no solo. Já servidos na corte do imperador da Persia no século V, esses vinhos são degustados por enoturistas do mundo inteiro.

Washington foi escolhida pelos dois júris

Num ano de eleição, quando a capital americana vira o centro do mundo e mergulha num ambiente digno deHouse of Cards, era lógico que tanto o New York Times que o Le Monde escolhesse Washington como um destino incontornável. Em 2020, não se deve perder o memorial de Lincoln, o Capitol, ou os tesouros artísticos da  National Gallery of Art (NGA). A cidade  está mudando, com novos museus, incluindo o “Smithsonian National Museum of African American History and Culture” inaugurado em 2016 e já constando como um dos mais procurado. Os jovens da cidade gostam de levar os visitantes até a U Street, num bairro afro-americano repleto de galerias de arte, de bares e de restaurantes ligados. De noite, o bairro residencial de  Dupont Circle vira uma trepidante área de vida noturna com famosos estabelecimentos LGBT e bares esportivos animadíssimos. 

Nas ruinas de Gondar, as marcas da herança portuguesa

Destino fora do comum, a Etiopia  ganhou um nova impulse esse ano com o premio Nobel da Paz do seu primeiro ministro Abiy Ahmed. “Terra das origens”, esse pais peculiar deve ter fascinado os jornalistas de Paris e Nova Iorque da humanidade pelas suas beleza naturais, da grande falha até o deserto do pais Dankali e as cataratas do Nilo azul. Mais antigo estado cristão do mundo com a Arménia, o antigo Reinado do Preste João oferece ao turista suas quatro antigas capitais, Axum nos passos da Rainha de Sabá, Lalibela e as igrejas monolíticas dos usurpadores Zagué , Gondar e sua arquitetura influenciada pelos então aliados portugueses liderados pelo filho de Vasco da Gama, e Addis Abeba, a “nova flor”  do emperador Menelik II, hoje a borbulhante metrópole de um pais de mais de 100 milhões de habitantes .

A escolha de Minorca pelos dois júris foi uma surpresa

É talvez por ser muito menos famosa que suas duas irmãs, Maiorca e Ibiza, que Minorca foi selecionada como uma das tendências 2020. Terra de camponeses e de fazendas, a pequena ilha das Baleares tem menos de 100 000 habitantes e mais de 200 praias, abertas ou escondidas. Passeando a cavalo pelo caminho costeiro  « Cami de Cavalls », o visitante descobre a areia vermelha da praia de Cavalleria, as aguas turquesa da Cala Mitjana, ou as dunas selvagens da Cala de Algarien. Com a capital Port Mahon, sua igreja, sua prefeitura e sua fortaleza, e com a força do seu agroturismo de luxo desenvolvido em estabelecimentos muito badalados como  a finca Torre Vella ou a antiga fazenda Menorca Experimental, Minorca seduz por ter escapada do overturismo que tanto preocupa as outras ilhas da região. Um sucesso que os jurados tanto do New York Times que do Le Monde querem talvez ver se espalhar para outros destinos em 2021.

Jean-Philippe Pérol

Os jornalistas do NYT acreditam na trilha da mata atlântica

 

 

 

Turismo na “Ile de Ré”, o luxo nascendo da simplicidade

Relais Châteaux em Saint Martin en Ré

A sofisticação dos turistas encontrados nos cais da marina, nas praias, nos bares ou nos restaurantes de Ars-en-Ré poderia parecer a mesma que em Saint Tropez, Biarritz ou Deauville. O viajante vai porem logo perceber que a Ile de Ré,  pequena ilha francesa a 200 quilômetros de Bordeaux, tem um ambiente e uma vida social bem diferentes. Bicicleta em Ars en RéChique aqui não é andar de Ferrari mas de bicicleta ou de Mehari (um carro popular fabricado pela Citröen nos anos sessenta), bem sucedido não é mostrar um iate de cem pés com dez marinheiros mas sair sozinho do antigo porto dirigindo o seu pequeno veleiro, gourmet não é correr atrás de restaurante gastronômico mas mostrar a seus amigos seus talentos de chefe amador. E no porto da cidade vizinha de Saint Martin en Ré, o Relais et Châteaux só tem 20 suites e quartos escondidos num prédio do século 17.

As fortificacões de Saint Martin, patrimônio mundial da Unesco

A historia faz parte do charme da ilha. Sede de muitos confrontos durante as guerras de religiões, cobiçada pelos inglês e os holandeses, a ilha foi completamente fortificada no final do século 17. Os oito quilômetros de muralhas e o porto fortificado de Saint Martin, construídos pelo famoso engenheiro militar Vauban, foram decretadas em 2008 “patrimônio mundial da humanidade”. Os viajantes gostam também do imponente Farol das Baleias.Farol das Baleias e arredores Subindo os seus 257 degraus, e seus 57 metros de altura, aproveita-se duma vista excepcional sobre as praias, o antigo farol do Vauban, e as “eclusas”, armadilhas de pedras usadas pelos pescadores desde a Idade Media para pegar peixes e crustáceos . Outrora terminal do trem que percorria a ilha, a parque do Farol é também centro de muitas atividades de lazer, bem como a sede de um simpático e concorrido festival de jazz durante o mês de Agosto.

A Ponte da Ile de Ré para La Rochelle

Hoje ligada ao continente por uma ponte de 3 quilômetros, a Ile de Ré ficou mas acessível. Mas se a população chega em Agosto a 200.000 habitantes, os vilarejos não perdem o seu tão peculiar ambiente onde o luxo sempre combina com a simplicidade.Venelles de Ars en Ré Nas “venelles” (assim se chamam as ruas da Ile de Ré) floridas, atrás das fachadas brancas e das portas discretas, escondem se casas de alto padrão (que podem ser alugadas), com piscinas e pátios arborizados . Nos mercados, nas feiras livres e nas lojas, pouco “show off”, a preferência vai sempre para produtos autênticos,  “Fleur de sel” das salinas da ilha, Pineau des Charentes (vinho branco produzido localmente e fortificado com Cognac), artesanato “rhétais” ou das regiões próximas (sejam Poitou, Bordelais, Vendée ou Britânia), vestuário útil e com muitas referencias ao mar e a marinha. Café du CommerceOs bares e restaurantes participam também do espírito da Ile de Ré. Seja para um café da manha no Café du Commerce ou no Le V, um aperitivo no Pirates ou no La Cabane de la Patache, um jantar no Fleur de Sel ou no Taxi Brousse, o serviço é sempre descontraído e personalizado. A sofisticação e a exclusividade são trazidos pelo próprio publico, vindo do Quartier latin de Paris, mas também do mundo inteiro, criando um “je ne sais quoi”  onde o verdadeiro luxo é gozar da simplicidade.

Jean-Philippe Pérol

Passeio de veleiro

Veleiro na Praia das Portas