Viagens de negócios na pós pandemia, euforia ou cautela?

Nova Iorque, destino líder tanto nas viagens de negócios que no bleasure

As TMC, “Travel Management Compagnies”, estão surpreendendo os observadores do turismo internacional. Enquanto todas as pesquisas projetava uma queda de 20 à 25% das viagens de negócios depois da crise do Covid, as grandes empresas do setor anunciaram crescimentos de dois dígitos da suas atividades em 2023, e parecem extremamente animadas não somente para 2024 mas também nas projeções de faturamento a medio prazo. Olhando as novas tendências que caracterizam  essas viagens, especialmente dos viajantes mais jovens, bem como a evolução dos preços dos principais fornecedores – companhias aéreas e hotéis-,  poderia ser que a euforia dos mas otimistas seja compatível com a cautela dos mais céticos?

O controle das despesas continua sendo uma ferramenta chave das TMC

Uma pesquisa internacional da SAP Concur, a maior plataforma de gestão de dados corporativos, sobre a evolução das despesas de viagens das empresas européias, mostrou mudanças importantes de 2019 para 2023. As passagens aéras, primeira despesa corporativa, subiram em media de 10% em relação ao nível pre pandemia, uma alta mais marcante ainda no ano passado. A SAP Concur avisa porém que essa inflação dos custos é geral, sendo ainda mais alta nos gastos de alimentação – que aumentaram de 30%-, e mesmo nas despesas de hospedagem – 21% acima dos níveis de 2019. No Brasil, a evolução é ainda mais marcante, especialmente para o transporte aéreo que sofreu uma inflação de 14% neste mesmo período.

As viagens de avião são as mais prejudicadas pelos cortes

Depois da euforia, as despesas de viagens de negócios voltarão talvez em 2024 aos volumes anteriores a crise, mas este resultado é principalmente a consequência da inflação que compensou uma queda do número de viagens estimada em quase 20%. No Brasil, uma recente pesquisa da ABRAJET mostra dados um pouco mais otimistas, com números de transações das TMC em queda de somente 12,6% de 2023 para 2019. Essa queda se deve tanto as restrições de despesas que ao sucesso das videoconferências (vistas por 31% das empresas como uma alternativa as viagens) e ao crescimento da “consciência ecológica”. Reais ou comunicadas, as preocupações  com o meio ambiente ou a  descarbonização levam muitas empresas a reduzir suas viagens, especialmente aquelas realizadas de avião. É assim que hoje 43% dos viajantes de negócios declaram que estão viajando menos pelas suas empresas que há 5 anos atras.

Novas tendências vão mudar o perfil das viagens profissionais

Mas, mesmo se o número anterior de viagens profissionais deve somente ser reencontrado a nível mundial depois de 2028, várias novas tendências devem ajudar as TMC a defender suas posições de destaque no setor das viagens e do turismo. As viagens continuam de ser um componente chave da vida das grandes empresas, ajudando a consolidar as parcerias com clientes e fornecedores. Além disso, o interesse pelas viagens  como fator de desenvolvimento pessoal é agora um argumento importante para atrair e desenvolver os talentos dos colaboradores. E, depois da crise, a combinação de negócios e lazer – o “bleasure”- é cada vez mais aceita, sendo hoje utilizado cada dois ou três meses por mais da metade dos viajantes.

Inovar com personalização, eficácia e sustentabilidade é o novo desafio.

Tradicionalmente focadas na gestão das despesas de viagem dos seus clientes, ajudando a definir previsões corretas, políticas eficientes e controles de conformidade, os TMC insistem hoje na exigência de combinar essas tarefas com a garantia de oferecer também aos viajantes a segurança, a saúde e o bem estar. Com a flexibilidade e a personalização cada vez maior das políticas das empresas, a oferta de serviços para as viagens pessoais dos dirigentes e/ou dos funcionários abriu novas oportunidades, seja para os próprios TMC, seja para filiais especializadas. Assim como as tendências pós-pandemia ou o “bleasure”, as ofertas de viagens de lazer personalizados – já exploradas no passado com sucessos variáveis pela Amex ou a Wagons lits- podem ajudar  a compensar o inevitável recuo do número de viagens profissionais.  Mesmo para os mais cautelosos, as oportunidades assim oferecidas podem incitar, senão a euforia, pelo menos ao certo otimismo?

Jean Philippe Pérol

Encontros de tele-colegas ou bleisure tele-trabalhado, os novos tipos de viagens corporativas

A pandemia acelerou a evolução das viagens de negócios

Depois de dois anos quase paradas, as viagens corporativas estão agora crescendo num cenário completamente transformado, com ritmos diferentes por atividades e por setor, algumas já atingindo o nível de 2019, outras ainda esperando a retomada Segundo as mais recentes estatísticas da Global Business Travel Association (GBTA), estas despesas internacionais vão atingir em 2022  65 % dos US$ 1,4 bilhões que foram gastos em 2019, com um crescimento de 34 % em relação a 2021. Mas os profissionais do turismo devem agora esperar até 2026 para superar definitivamente a crise aberta pela pandemia. 

A preocupação com a pegada carbono freia as decisões de viagens

Vários fatores estão pesando sobre a retomada: as tensões geopolíticas, os preços da energia, a alta da inflação, as perturbações de logística internacional e a falta geral de mão de obra. As empresas estão também preocupadas com a recuperação dos seus lucros, a redução das suas emissões de carbone, e querem aproveitar ao máximo as novos ferramentas de comunicação  para facilitar as reuniões virtuais. No proprio setor do turismo, os hotéis, os restaurantes e as agências de viagem estão vendo um forte crescimento dos pedidos, mas em muitos lugares (especialmente na Europa) enfrentam dificuldades para responder por falta de pessoal ou falha dos fornecedores.

Os novos encontros profissionais exigem criatividade

Os novos comportamentos dos viajantes exigem também novas respostas dos profissionais. Os cancelamentos de última hora atingem agora até 20% dos participantes e as condições devem ser revistas. A procura de eventos de medio e pequeno porte cresceu muito mais que a media, necessitando reconfigurações dos espaços. As empresas pedem muito mais criatividade nas programações que devem mostrar um valor agregado mais forte para as empresas e mais atraente para os participantes. E no mesmo tempo as reservas têm uma tendência a ser cada vês mais de última hora, exigindo muita reatividade.

Os tipos de encontros estão mudando. Para um funcionário em teletrabalho, ir para o escritório seria uma viagem corporativa? Se reunir com seus tele-colegas seria um evento profissional? De certa forma, sim. Devendo se adaptar as novas relações no trabalho, as empresas organizam seminários, reuniões e atividades para compensar o distanciamento das equipes virtuais. Em tempo de mão de obra escassa, essas reuniões devem não somente informar, aproximar e incentivar os colaboradores, mas também ser agradáveis e até divertidas. Os destinos já estão integrando essas novas dimensões e o seríssimo turismo da Suiça lançou uma campanha dizendo que “Precisamos de viagens corporativas com cara de ferias”.

O teletrabalho está abrindo mais oportunidades de viagens corporativas

Uma outra tendência observada nas viagens corporativas é o crescimento do bleisure. Antes mesmo da pandemia, a prorrogação de uma viagem profissional por motivos pessoais era cada vez mais popular, especialmente junto aos milênios. Segundo uma pesquisa da  Future Market Insights report, o bleisure representa hoje de 30à 35% das viagens mundiais, mas o teletrabalho está abrindo muitas novas opções. O colaborador poderá prorrogar suas ferias com um bleisure tele-trabalhado, um conceito atrativo na hora de achar novas ideias para melhorar as condições de trabalho, e incentivar o pessoal num momento de muitas turbulências necessitando criatividade, audácia e flexibilidade.

Este artigo foi traduzido e adaptado de um artigo original de Amélie Racine na revista profissional on-line Reseau de veille en tourisme, Chaire de tourisme Transat