Frente as ameaças do overturismo, a França da cultura procura novas oportunidades

O Palácio de Versalhes já ameaçado pelo overturismo?

Galinha dos ovos de ouro de muitos museus, monumentos, concertos, ou exposições, o turismo estaria agora virando o vilão da cultura? Até pouco tempo, pelo menos na França, a pergunta podia parecer estranha e os responsáveis da cultura só se preocupavam em conquistar mais visitantes internacionais. No Louvre eles chegam a representar 70% das entradas – com destaque para o milhão de  americanos, os 600.000 chineses e os 290.000 brasileiros -, e mais ainda das receitas do museu e do centro comercial. E para a imensa maioria dos principais museus e monumentos franceses, os turistas são uma fonte de renda essencial, ajudando as vezes uma politica de gratuidade para os moradores ou os cidadãos  da União Europeia. A importância dos turistas para cultura foi claramente percebida em 2016 quando faltaram, e depois em 2017 e 2018 quando voltaram. Mas agora é o “overturismo” que preocupa as autoridades do setor.

O Louvre já preocupado com o overturismo

A Atout France, agencia de desenvolvimento do turismo da França, já está chamando a atenção sobre o problema, lembrando que não é imediato mas deve ser antecipado. O overturismo cultural está longe da realidade de 80% dos territórios que recebe somente 20% dos turistas internacionais, mas  ameaça especialmente  Paris onde quase todos os visitantes procuram os museus e monumentos das margens do Rio Sena. Ele preocupa também Versalhes e o Mont Saint Michel, ou até pequenos vilarejos como Saint Paul de Vence e sítios como os castelos do Loire. Todos devem preparar o futuro sabendo que a França vai receber 100 milhões de visitantes em 2020, e que a cidade de Paris, cuja população deve cair a menos de 2 milhões de habitantes, vai ver o seu números de turistas passar de 26 milhões esse ano para 54 milhões em 2050.

Veneza é o exemplo que todos querem evitar

Enquanto a cultura é a motivação principal de 50 à 70% dos turistas na França, exista mesmo uma urgência para encontrar soluções que não decepcionam os milhões de novos visitantes. Para facilitar os percursos nos sítios mais procurados, evitar as concentrações durante os grandes feriados e promover atrações culturais menos conhecidas, existem muitas experiências internacionais a ser analisadas. Firenze e Roma tentam impedir os piqueniques nas escadarias das praças ou das igrejas, Veneza experimenta bloqueios nos lugares mais procurados nas horas de pique, e destinos como Machu Pichu (Peru), Dubrovnik (Croácia), o Taj Mahal (índia), Santorini (Grécia) e a Ilha de Páscoa já tomaram medidas para reduzir o numero de turistas – quotas menores e tarifas mais altas sendo soluções cada vez mais avançadas.

O Louvre Lens, uma grande ideia para desviar fluxos de turismo cultural

Os grandes museus da França estão na mesma lógica que seus concorrentes internacionais. Todos temem que as frustrações dos amadores de arte e dos moradores frente as filas ou as confusões que fazem as galerias onde são expostas as obras mais procuradas aparecer shopping centers em tempos de promoções. Todos eles, sejam o National Gallery em Londres, o Prado em Madrid, o Ermitage em São Petersburgo ou o Metropolitan em Nova Iorque, estudam meios de canalizar os fluxos turísticos hoje imprescindíveis para suas sobrevivências financeiras: ampliar horários, melhorar acessos, orientar os fluxos, facilitar as reservas, abrir novas salas ou até criar “subsidiarias” -solução imaginada pelo Louvre em Lens e o Centro Pompidou em Metz. A médio prazo todos sabem porem que o aumento dos preços das entradas para os turistas não residentes, por discriminatório que pode parecer, é talvez a única solução que poderá tranquilizar os moradores e garantir aos visitantes o acesso a riquezas culturais que são a grande motivação do turismo internacional.

Jean-Philippe Pérol

O Met de Nova Iorque cobra agora 25 USD dos visitantes, exceto dos moradores

 

Cultura e arquitetura, o sucesso da renovação da França do Norte

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Centre Pompidou-Metz

Muitas vezes desprezados pelos próprios franceses que assimilavam essas regiões a seu passado de miséria nas minas de carvão ou de ferro, gozando dum clima mais frio que inviabiliza os vinhedos, tendo sido devastados durante duas guerras, o Norte e o Nordeste da França demoraram muito para atrair os visitantes. Foi somente a partir dos anos 90, com a abertura do túnel sob o canal da Mancha, a mobilizadora nomeação de Lille em 2004 como capital europeu da cultura, e a multiplicação dos grandes projetos urbanos, que as grandes cidades da região começaram a aparecer como destinos turísticos.

Palais des Beaux Arts de Lille

Palais des Beaux Arts de Lille

Lille tem hoje nove museus importantes, sendo o Palais des Beaux Arts o segundo mais rico da França. O prédio construído em 1892 foi completamente renovado em 1997, e ampliado com uma nova ala desenhada pelos arquitetos  Jean-Marc Ibos e Myrto Vitart. LILLE GALERIESuas paredes de vidros refletem as pedras da ala original, misturando as imagens e as obras do passado e do futuro. Alem de um acervo acumulado desde a criação do Museu (em 1792), com obras de Delacroix, Monet ou Donatello, o Palais des Beaux Arts abriga também uma coleção única de numismática, bem como as famosas e polêmicas mapas militares em baixo relevo de Vauban.

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Place Mazelle de Metz

Antiga cidade fortificada, em crise desde o fim das siderúrgicas francesas, Metz apostou em 2003 num grande projeto cultural, a construção de uma filial do Centre Pompidou assinada pelos arquitetos Shigeru Ban (Tokyo), Jean de Gastines (Paris) et Philip Gumuchdjian (Londres). hd_metz_muse_vue_nuit.showAberto ao publico em 2010, ele recebeu um acervo de 76.000 peças da sua matriz. A audácia do projeto acelerou a renovação urbana e varias outras construções vão em breve se destacar, como o centro de convenções ou o shopping Muse.

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O Louvre de Lens

Era uma antiga ambição do Louvre: abrir um segundo museu fora de Paris para mostrar as suas ambições nacionais, utilizando no interior da França, e com novas ideias, o seu extraordinario acervo. Em 2003, o ministério da Cultura lançou uma licitação que entusiasmou a cidade de Lens. A sua proposta, de autoria da agencia japonesa Sanaa, foi escolhida em 2005 entre mais de 120 projetos.

A Galeria do tempo do Louvre de Lens

A Galeria do tempo do Louvre de Lens

O prédio de vidro e de luz  ajuda também a valorizar um novo conceito revolucionário de apresentação das obras: a Galeria do tempo. Numa única sala de 125 metros de comprimento, 205 peças pertencendo a todas as grandes civilizações apresentam de forma cronológica 6000 anos de historia, uma caminhada simbolicamente fechada pela “Liberté guidant le peuple” de Delacroix.

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O Carnaval de Dunkerque

Orgulhoso de sua passado mineiro e das suas rebeldia, dos seus jardins operários ou das suas montanhas de poeira de carvão (“Terrils”), o Norte da Franca tem também outros trunfos para atrair  os visitantes: a  simpatia da sua juventude, a alegria da sua vida noturna e da sua gastronomia, o sabor das suas cervejas, e seus carnavais descontraídos. Assim que já foi demonstrado em Bilbao com o Guggenheim, os grandes projetos culturais são porem atrativosos excepcionais para atrair novos destinos nos roteiros turísticos internacionais.

Jean-Philippe Pérol

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Os “terrils”, morros artificiais do Norte da França