Depois da crise, o agente de viagens , o preço e o sonho

No inicio da Jet Tours em 1973, Roger Pinson avisava: Vendemos sonhos!

 Se ainda é cedo para medir todas as consequências do Covid 19 sobre o turismo global, é certo que a crise sanitária virou um extraordinário catalizador. Overturismo, turismo de massa, turismo transformador, sustentabilidade, pegada carbone e intercambio com os moradores já eram  mudanças já exigidas pelos viajantes, mas a urgência foi acelerada durante o confinamento. Para responder a esses novos clientes, e frente as transformações que seus parceiros aéreos, marítimos ou hoteleiros estão sofrendo, operadoras e agencias de viagens vão ter que reimaginar um novo modelo que responde as novas aspirações dos clientes, mas que defina também claramente o valor agregado – e o futuro- de cada um dos atores.

A longa historia da Thomas Cook, encerrada antes da crise

Antes mesmo da crise, muitos deles já estavam perdendo dinheiro, e todos se lembram da espetacular falência do grupo Thomas Cook, pioneira do turismo há 158 anos. No mundo inteira a situação piorou com o Covid19. Na Europa, o líder TUI, acostumado a gerar quase um bilhão de euros de lucro anual, só foi salvo com um surpreendente empréstimo de 2 bilhões do governo alemão. Na França, estima se que mais de 20% das agencias podem não sobreviver se não tiver ajuda. A situação no Brasil caminha na mesma direção, inclusive para operadoras de primeira linha como foi tristemente demonstrado essa semana pelo pedido de recuperação judicial da conceituadíssima Queensberry.

OTA versus hotels, uma briga que deixa os agentes do lado?

Toda a cadeia do modelo tradicional parece ameaçada. Os destinos se queixam do baixo nível medio dos gastos, grande parte deles ficando nos países de origem dos turistas. Da França até os Estados Unidos e mesmo na Alemanha, as companhias aéreas têm as maiores dificuldades para sobreviver sem ajuda dos governos, e as novas normas sanitárias e ecológicas podem a medio prazo piorar a situação. Os hoteleiros não estão em situações muito melhores, tendo alem disso suas receitas drasticamente reduzidas pelas exigências e as margens as vezes insustentáveis dos únicos atores que parecem aproveitar economicamente do turismo: os GAFA e as grandes OTA mundiais. Frente a corrida aos preços baixos e as compras impulsivas, agencias e operadoras devem se reinventar.

Novos valores de ecologia e ética  devem ser incluidas nas ofertas de serviços

As soluções são difíceis de encontrar, mas duas ideias já parecem se destacar. A primeira é de priorizar o “melhor turismo” em vez do “mais turismo”. Os destinos devem parar com a lógica dos números globais, privilegiando as receitas, os territórios ou as temporadas. As companhias aéreas e os hotéis devem enfrentar custos maiores e capacidades reduzidas que só podem ser equilibradas com preços mais justos e reformulações do yield. Os agentes de viagens devem ajudar nessa transformação, recusando as lógicas do tudo-pelo-mais-barato carregadas pelas OTA. Popularizando os novos valores, cultura, ecologia, ética e responsabilidade social, podem assim também demonstrar a importância das suas intermediações.

Tahiti sempre liderou os destinos de sonho  @marcgerard

A segunda é de trazer de volta as operadoras e as agencias para a essência mesma da sua profissão: vender sonho. Com viagens internacionais menos frequentes e frente a globalização tecnológica,  devem lembrar que viajar é muito mais que uma passagem de avião e umas noites de hotel, tão bem escolhidas que sejam. Viajar é realizar um sonho, viajar é descobrir novos lugares e realizar novos encontros, viajar é viver experiências únicas, viajar é voltar com imagens e lembranças transformadoras. Mas do que nunca, quando a crise passar, a magia – e a razão- do apaixonante  trabalho dos agentes de viagens voltarão a ser de ajudar a realizar esse sonho.

Jean Philippe Pérol

O Club Med nunca esqueceu de lembrar que viajar era sonhar

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue do autor na revista profissional on line Mercado e Eventos

Na Thomas Cook, a “Pop-up store” anuncia a nova agencia de viagem!

 

www.antoinecibert.com

Nascer do sol na capital da Auvergne. Foto Antoine Cibert

Como será a agencia de viagem do futuro? A Thomas Cook France, herdeira do famoso grupo fundado pelo próprio Thomas Cook em 1841, decidiu tentar uma experiência inédita. Thomas CookNo shopping de Nacarat, perto de Clermont Ferrand, capital da Auvergne, inaugurou uma “pop-up store”, loja efémera que ficará aberta até o final de junho. Aproveitando a clientela de forte poder aquisitivo que frequenta as 78 lojas – algumas de marcas muito conhecidas como Sephora, Swarowski, Zara, H&M  ou Leroy Merlin- , a Thomas Cook quer atrair para as suas agencias de viagem um publico mais jovem e até então mais acostumado a comprar suas viagens diretamente na internet.

POP STORE CLERMONT

Mesmo se inspirado do design das lojas tradicionais da empresa, a pop-up store tem um visual muito aberto e bem aconchegante, deixando os clientes a vontade para sonhar e criar os seus roteiros de viagens. Numa tela digital, a Thomas Cook apresenta os últimos clips das suas campanhas publicitarias bem como vídeo dos parceiros ou dos destinos selecionados. thomas-cook-agence-ephemere-2Travel Glass (óculos com visão 360 graus) ficam a disposição dos visitantes para umas visitas inovadoras de locais ou de hotéis. As ofertas das operadoras são todas exclusivas, ou pelas tarifas concedidas ou pelos produtos apresentados, alguns tendo sido adaptados para ter saídas do aeroporto de Clermont Ferrand. Alem de grandes operadoras como a Jet tours (antiga subsidiaria da Air France, que chegou a ter charters para o Brasil), a Disney e Cruzeiros Costa apoiaram esse operação pioneira. E o Club Med – que pertence agora ao chinês Fosun, também acionista da Thomas Cook – não podia deixar de estar presente, apresentando um concurso de fotos de viagens.

Club Med Chine

A presencia do grupo chinês na mais antiga agencia de viagem do mundo vai sem duvida multiplicar as inovações nessa anciã do turismo mundial. A Fosun, que comprou 4,8% do grupo mas quer subir para 10% e mais, já anunciou alguns eixos de crescimento. Maiores sinergias para distribuição do Club Med, melhor aproveitamento dos sites de vendas on-line, crescimento das atividades de receptivo e investimentos conjuntos na hotelaria jà foram alguns das possibilidades levantadas. Nessa nova estratégia mundial, a pequena Pop-up store de Clermont Ferrand pegou uma importância inesperada. No Brasil, onde grandes movimentos envolvendo operadoras, agencias on line e agencias tradicionais estão sendo esperados pelo mercado, essas ideias novas também podem vingar.

Jean-Philippe Pérol

PUY DE DÔME E VULCANIA